quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

No Brasil, melhora a matemática e piora a leitura?

Você ouviu ou leu por aí que no Brasil nossos alunos estão melhores em matemática e piores na leitura. Segundo os pesquisadores foram avaliados cerca de 400 mil alunos, de 57 países. A maior nota registrada foi de 707,9. Os brasileiros alcançaram, em matemática e em leitura, 393 e 370. Veja o resultado disso, segundo O Estadão: “Esse desempenho faz com que o País não consiga passar do nível 1 de aprendizagem - numa escala que varia de 1 a 6, sendo 1 o pior. Isso quer dizer que os alunos conseguem apenas localizar informações explícitas e não são capazes de fazer comparações, estabelecer conexões ou interpretar textos. Em matemática, eles não podem sequer resolver problemas simples.”

Agora vem uma série de comparações com outros países e sistemas educacionais com realidades sócio-econômica-cultural muito diferente do Brasil. Esta estatística só ratifica aquilo que todos nós já sabíamos. O que surpreende um pouco é que a pesquisa foi feita também com algumas escolas particulares, onde se supõe que a qualidade de ensino é melhor do que a que oferece as escolas públicas.

Eu já trabalhei em todos os níveis, ou seja, do maternal a universidade; em escola pública estadual, pública municipal, particular e federal. Vi algumas coisas que confirmam tudo o que dizem as estatísticas e muito mais. Quando eu estava fazendo faculdade de Educação Física, na UFSC, sempre ouvi dizer do sistema educacional sucateado e falido. Formei-me, fui para a escola e o discurso era o mesmo. Fiz minha pós-graduação também na UFSC e ainda discutíamos os mesmos problemas e buscávamos meios de superar as dificuldades. Fiz uma monografia que falava sobre a “violência na escola”. Será que este tema é atual ainda? Sabe quando terminei a pós-graduação? Em 1993. Estamos em 2007 e o discurso continua o mesmo, as escolas continuam as mesmas, e creio que este círculo vicioso não será quebrado tão fácil, pois o problema abrange não somente as escolas, mas a sociedade como um todo.

O próprio jornal nos mostra que tipo de cidadão estamos formando: “O exame de leitura da OCDE analisa não só a habilidade de ler e escrever, mas também de interpretar textos, usar a escrita em situações cotidianas, opinar.” Você percebeu? Não somente não conseguimos interpretar os textos, mas também o mundo a nossa volta; não conseguimos nos expressar, creio que não somente por escrito, mas verbalmente também, nas diversas situações do dia-a-dia e o que eu creio ser gravíssimo, estamos formando pessoas sem opinião. Claro que não estou falando de uma “cabeça oca”, mas de uma formação que não permite a análise e discernimento de algo e emitir opiniões construídas a partir de seu múltiplo conhecimento sobre o assunto, aliado ao seu mundo vivido.

Tenho em casa uma menina de 9 anos que escreve e lê melhor que muitos alunos do ensino médio. Ela não é nenhum gênio, mas ajudou muito alguém estar preocupado com sua educação. O brasileiro está preocupado com a educação de seus filhos? Muitos pais só aparecem na escola para reclamar dos professores ou porque o filho fez algo que necessitasse sua presença ali. Eu creio que a transformação de nossa nação para se tornar um país de primeiro mundo, somente acontecerá através da educação. E esta vontade de crescer e mudar deve começar em cada lar.

Os discursos dos professores quando saem da faculdade são maravilhosos e cheios de vida e esperança, até viverem a realidade da escola, principalmente a pública, onde acaba se acomodando ao sistema, se desejar sobreviver como professor, recebendo o questionado salário. Eu entendo que muitos esforços de bons professores em todo o país tem feito a diferença, mas ainda precisamos de muito mais. Mais qualificação para nossos professores! Por que não mestres e doutores em nossas escolas? Este estágio parece ser privilégio de alguns. Qualifiquem os professores, equipem as escolas, alimentem o povo e resolveremos muitos problemas!

Desculpem eu ser tão simplista assim, mas essa é a realidade. Por isso disse que é um problema que atinge todos os níveis de nossa sociedade. Já imaginou uma escola super-equipada, com professores doutores para dar aula, ônibus escolar de primeira para transporte dos alunos?

Mas os alunos chegam à escola, famintos, intimidados, surrados, violentados, drogados, sonolentos por passarem a noite em claro ouvindo a mãe sendo espancada pelo marido que chegou bêbado?

Não sou pessimista a ponto de não enxergar que estamos bem melhor do que há algum tempo, mas ainda aquém das propostas e possibilidades de uma nação como a nossa. Falta de tudo um pouco. Mas dando uma especial atenção para a educação, em todos os níveis, e considerando o nível básico como prioritário, colocando ali bons professores e bem pagos, a tendência é termos bons estudantes no ensino médio e universitário. Uma formação completa, que transcende ao intelectualismo, como diz White no texto abaixo:


“A verdadeira educação não desconhece o valor dos conhecimentos científicos ou aquisições literárias; mas acima da instrução aprecia a capacidade, acima da capacidade a bondade, e acima das aquisições intelectuais o caráter. O mundo não necessita tanto de homens de grande intelecto, como de nobre caráter. Necessita de homens em quem a habilidade é dirigida por princípios firmes. A formação do caráter é a obra mais importante que já foi confiada a seres humanos.” E. White. Educação, 225.

Paulo Ramos
Coordenador Geral do ARCRON



Baseado no texto de Renata Cafardo
Com colaboração de Patrícia Campos Melo
O Estadão – 05/12/2007

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