sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Um teste difícil de crer

Ao olharmos os noticiários ou mesmos darmos uma volta por algum bairro onde pessoas carentes moram, você observa quantas pessoas necessitam de ajuda e tantas outras sofrendo. São dores que não podemos explicar, apenas acreditar que é quase insuportável, como as mães e pais que perderam suas filhas de forma estúpida como um acidente de transito, onde o álcool é o grande vilão. Os de boa cultura e formação, a classe privilegiada que são os universitários tem decepcionado tremendamente, ora são os trotes violentos ou perigosos, ora são os universitários insanos que entram na sala de aula atirando e depois de provocar o caos dá um tiro na cabeça.

Ao falarmos de pessoas que sofrem acabamos mencionando um personagem histórico e lemos sobre ele naquele famoso livro, a Bíblia. Eu falo de uma figura chamada Jó. Homem de caráter e princípios mas vítima dos ciúmes que o leva a questionar se realmente era merecedor de tudo o que possuía. Pensamos que este livro escrito por Moisés é o clássico do sofrimento, mas a grande surpresa é que não é! O ponto central da teologia deste livro é a graça, não o sofrimento. No início do livro você percebe que esse assunto não é mencionado, esta vítima de um certo usurpador, sofrendo a dor pela perda, não somente dos bens mas, creio que principalmente dos filhos, consegue afirmar: "bendito seja o nome do Senhor."


Esta questão do sofrimento somente é levantada durante o diálogo que tem com seus “amigos da onça”, mesmo assim não há nenhuma resposta. O que surge é aquilo que fazemos sempre, ou seja, apresentamos suposições. Como em nossa vida, surgem muitos “por quês” ao longo deste livro, mas não há resposta e essa questão. Deus simplesmente classifica este tipo de discussão como loucura.

A questão principal, encontramos logo no início do livro de Jó, um desafio, ou melhor, uma pergunta desafiadora: “será que alguém pode servir a Deus de graça?” Voltando ao livro bíblico, Jó poderia servir a Deus de graça, sem nada, sem sua fortuna, sem sua família, sem seus amigos, sem sua casa, sem sua esposa, e doente? Você serviria a Deus com uma crise desta em sua vida, a ponto de louva-Lo e dizer: “Bendito seja o nome do Senhor”?

Aqui temos dois grandes desafios, colocados pelo inimigo da humanidade, que nos fazem pensar:
Primeiro Desafio: “Ninguém serve a Deus de graça”, não existe graça, existe sim uma troca mútua de interesses. Jó, como muitos de nós, serve porque tem tudo. A afirmação foi: “toca em Jó e verás que ele te amaldiçoa diante do universo”.

O grande paradoxo foi que quando Jó foi tocado ele disse: “O Senhor o deu, o Senhor o tomou”. Ele realmente servia a Deus de graça. Jó conhecia Deus, por isso pode fazer tal afirmação.

Segundo Desafio: “Toca em Jó e ele o amaldiçoará”. Tal afirmação insinua que Jó ama mais a sua vida do que a Deus. Ele fará tudo para defender a sua vida. Mas não é assim que somos? As coisa pioram mais ainda para este herói, pois foi coberto de chagas e sua própria esposa o incentiva amaldiçoar a Deus e morrer em seguida. Com o segundo desafio vem o segundo paradoxo e Jó prova que o amor supremo a Deus é possível.

Esta questão do por que do sofrimento está no nível do debate humano. Na esfera divina o problema é a graça. Chega um momento que Jó, embalado por seus “amigos” está disposto a morrer, torna-se uma pessoa irreconhecível. Agora ele parece como tantos de nós e começa a falar de seu problema: “maldito dia em que nasci... (3:11ss)”. E aquela pergunta clássica dos depressivos, também feita por Jó: “Por que Deus não me deixa morrer? Por que se dá a vida aquele que sofre, o miserável que não tem mais esperança, aquele que não quer mais a vida?"

Conhecer a Deus não nos garante uma permanente experiência positiva, mas também podemos ter momentos de sofrimentos, momentos de baixa. Mesmo assim muito diferente daquele que não conhece Deus, pois neste há só revolta e experiência negativa.

Nesta história bíblica percebemos uma advertência quanto a tentativa de explicar tudo a respeito do sofrimento, ou de culparmos a Deus ou mesmo justifica-Lo. E é bom lembrar que nesse ímpeto de defender a Deus, muitos estariam dispostos a levar para a “fogueira” qualquer pessoa. Sim, é o tal do zelo sem entendimento que muitas vezes causa grandes prejuízos a harmonia e a paz. Normalmente os que defendem a Deus, o fazem dentro de seu próprio conceito, de acordo com o que pensa.

Um dos grandes pontos da teologia Bíblica é reconhecimento do homem como ser criado, como ser humano e com este reconhecimento vem o conhecimento de suas limitações. Entender isso é um desafio para nós. Deus não deu a resposta para Jó, como muitas vezes não dá respostas para seu sofrimento também, mas deu a salvação para ele e quer fazer o mesmo com você.

É difícil! Raramente aceitamos nossa condição de ser humano limitado e acabamos criando novos conceitos para transcender esta limitação, como por exemplo idéias ou doutrinas que não fazem parte do Livro Sagrado. Isso é uma rebeldia contra Deus. Houve um ser em outra esfera, não neste mundo, segundo este divino compêndio, que não aceitou sua limitação, sua posição de criatura, assim desejou tomar o lugar do criador, querendo ser Deus.

Todo encontro do homem com Deus resulta na conclusão de Jó: “Quem sou eu...”. No final deste livro Jó viu a Deus. No encontro com Deus nós encontramos a solução de nossos problemas e sofrimentos. Jó aceita a sua situação e a Deus antes de ser curado. Jó ainda pede em favor de seus amigos, em meio a seu sofrimento, sem a promessa de restauração. Jó aceita a experiência da graça, coisa muito complicada para nós, em nossos dias. Mas, certamente vale a pena servir ao Senhor.

Paulo Ramos
Coordenador Geral do ARCRON

0 comentários: