domingo, 27 de julho de 2008

Programas evangélicos nas rádios

Tudo começou pela Ave Maria. O Brasil é um país religioso, essencialmente de formação católica. Em grande parte das rádios em funcionamento na década de 60 transmitiam as 18h00 um pequeno programa de 5 a 10 minutos, sem patrocinador chamado Ave Maria. Uma tradição, nunca consultou o padre se podia.

Uma rádio colocou no ar, a outra achou boa idéia e colocou no ar também a Ave Maria, que pela tradição acabou virando moda. Era quase que “obrigatório” o programa da Ave Maria no interior. A.Z.Y.R.35- rádio que eu trabalhava nas transmissões do futebol, era comum o ouvinte estar interessado na transmissão do jogo em que aos 40 minutos do 2◦ tempo vencia por 2 a 1 e a rádio cortava a transmissão para apresentar a Ave Maria. Depois, quando voltava a transmissão do futebol o jogo já tinha acabado e seu time tinha perdido de 3 a 2.

Até que um dos patrocinadores da transmissão esportiva se rebelou e recusou-se a pagar sua cota na transmissão (nesse tempo tínhamos 5 cotas de Cr$5.000,00). Simplesmente quando fui receber o patrocinador, nervoso porque seu time tinha perdido o jogo, mandou que fosse receber do Bispo. O dono da rádio sentiu no bolso o tamanho de sua burrice e mudou o seu modo de fazer “rádio”.

Nessa época meio chateado com fato de ter perdido 3 patrocinadores (um falou para o outro, e o outro para o outro, e três se anuncia) chegou na Rádio o Pastor Roberto Rabello divulgando o programa A voz da Profecia – da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Na ausência do proprietário da rádio eu que respondia pelo expediente. O pastor Rabello queria um programa semanal de 15 minutos. Fiz as contas e pela tabela da rádio im-por-tava em Cr$ 100.000,00 por mês, o que o pastor achou muito caro (e era mesmo) como o programa já tinha gravado em acetato, fechamos por Cr$ 50.000,00 com a Igreja pagando as despesas do correio. Foi um furor na cidade.
A voz aveludada do pastor, a praticidade, era só colocar no prato e quando acabasse acabou. No disco não se falava, bom dia, boa tarde ou boa noite. O programa era um “Bom Bril”, tinha mil e uma utilidades, servia para qualquer dia da semana e qualquer horário. Olhe isso no final da década de 50, inicio dos anos 60, sem um único erro gramatical.
Despertou nas outras igrejas evangélicas o interesse em divulgar o Evangelho pela rádio. E rádio faturando, faturando. Foi possível trocar os pára-raios nos transmissores, pintar a rádio, fazer uns servicinhos na rádio, até colocar papel higiênico Tico Tico no banheiro (é singular mesmo). Começou a vaidade que até então não existia, todos querendo falar “na radio”, e cada um falando ao seu modo com o “português” sendo o homem da padaria da esquina. Chegou ao ponto que apenas o dinheiro não servia mais era preciso zelar pelo bom nome da radio.
Fiz uma reunião com todas as igrejas que tinham programa na nossa emissora (eu ainda não era sócio e nem tinha planos de o ser) e expliquei que no meu entender Deus não era surdo nem tampouco analfabeto, portanto não era preciso gritar com ele, nem falar nois vai, nois vorta e outras bobagens do gênero. Falei e soltei uma gravação da voz da profecia onde o Pastor falava com Deus sem nenhuma gritaria, e pedia as bênçãos do Senhor, sem exigir nada, sem cobrança alguma e dentro do português correto, numa tonalidade de voz perfeitamente audível.
Teve pastor ou obreiro que contra argumentou dizendo que o dinheiro do pastor não era melhor do que o dele. Imediatamente eu coloquei a disposição toda a verba de quem não estivesse satisfeito com a rádio, mas a partir do próximo mês a Z.Y.R. 35 só deixava no ar os programas que tivessem um padrão de qualidade mínimo.

Eu não queria que houvesse dois Roberto Rabello, mas a Z.Y.R. 35 era pequena, mas no mínimo era ouvida pelo menos cem quilômetros de distancia e estava sujeito a fiscalização do Dentel. O padrão subiu muito em sua qualidade. Obrigado, Pr. Roberto Rabello por você ter existido.

Enio Campos
Cronista e Radialista - Colaborador do ARCRON
Cônica publicada no Jornal "Tribuana das Águas"
de Águas de Lindóia - SP.

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