terça-feira, 9 de setembro de 2008

Olho grande, zero na conta bancária

Tenho ouvido falar muito nos golpes pelo telefone e fico pensando no assunto. Sei que o mundo mudou muito, tem os mais diversos tipos de golpes. Uns, até aceitável, mas tem cada golpe mixuruca que honestamente nem pode ser considerável golpe.

Eu reputo como ingenuidade, curiosidade ou até má fé quem caiu no golpe. Não parei muito tempo para pensar no assunto, mas deve ser encaixado naquele provérbio que meu avô contava nos anos de um mil novecentos e nada: “foi buscar lã e voltou tosqueado”.

Um dia desses o telefone tocou, fui atender e era uma ligação a cobrar. Nem deixei entrar aquela famosa ligação, desliguei na hora. Dali a cinco minutos, eis que o telefone toca novamente. Não era a cobrar. Uma voz firme, um português bem decorado queria saber quem estava falando. Não tive a menor dúvida e disse que era o Oscar.

Do outro lado da linha disseram que era do escritório da Consultoria Jonatom. Eu interferi: “Jonatom? Não é do escritório Donatom?” O cara entrou na minha, crente que tinha “achado um novo pato” e continuou seu blá blá blá. Disse que eles descobriram que eu tenho uma verdadeira fortuna no Unibanco. Para deixá-lo ciente que estava realmente falando com o “pato” certo, interrompi o monólogo e falei: “do fundo 157?” “Isso, isso, o senhor está prestes a perder esse dinheiro, o prazo vence amanhã”. Não poderia vencer nunca, pois amanhã seria sábado.

Para eu não perder TODO aquele dinheiro, seria preciso que eu depositasse, antes das duas horas, a importância de cinco mil reais, na conta número tal e tal e tal (não prestei atenção e mesmo que tivesse escutado bem, jamais lembraria. Minha memória funciona com bastante retardo).

Até hoje o espertalhão, ou sabidão, como eu costumo falar, está esperando o depósito. Por que não entrei no golpe do cara? Primeiro, porque não atendemos ligações a cobrar. Segundo: o “sabidão”estava falando com o OSCAR; terceiro: já recebi meu fundo 157 (e outros fundos) por ocasião da minha aposentadoria; quarto: não sou curioso e não acredito em Papai Noel desde 1943, quando, todo eufórico, deixei meus sapatinhos cheios de grama na janela de casa e quando fui buscar meu presente de Natal verifiquei que tinham roubado meus sapatos.

Fiquei muito “P” da vida, com o MAU velhinho. Demorou muito para eu acreditar que Papai Noel não é capaz de tanta maldade. Levei muito tempo para deixar de olhar no pé de qualquer menino. Mas serviu para alguma coisa. Desde 1943 sou mais desconfiado que gato ladrão. Só compro a prazo, com a mercadoria na minha mão. O vendedor que se vire para receber se bem que até hoje não devo nada a ninguém. Quando tive o derrame e fiquei fora do ar muito tempo, achei que estava devendo duas prestações no Mappim e pedi a Berê que fosse a São Paulo levando o dinheiro e os comprovantes de que estava acamado. Por sorte eu já havia pago as duas prestações antecipadamente e meu crédito estava limpo na praça.

Não tenho olho grande, não tenho tudo o que quero, mas quero tudo o que tenho. Sou meio desconfiado, apalpo bem o terreno onde vou pisar, e fiz um acordo com o governo: já que ele não paga tudo o que gasto, gasto tudo que ele me paga. Estamos conversados, passarei a reclamar menos, se bem que já está havendo um movimento no Senado e na Câmara dos Deputados achando que eu tenho razão e falando em ajuste dos Aposentados que ganham mais que o salário mínimo, evitando um achatamento.

Vou ficar na minha e ver se não é conversa de ano eleitoral. Qualquer coisa, mesmo que eu morra de dor nos rins, a Berê vai ficar esperando. Não é olho grande, é JUSTIÇA, que dizem que tarda, mas nunca falha. Vai valer a pena saber, mesmo por meio da oração. Só o fato de saber que eu tinha razão quando reclamava já é um consolo.

Enio Campos
Cronista e Radialista - Colaborador do ARCRON
Crônica publicada no Jornal Tribuna das Águas
de Águas de Lindóia – SP

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