terça-feira, 16 de setembro de 2008

Propaganda: A alma do negócio

Vou mais além, diria que é corpo e alma do negócio. Quantas e quantas vezes afirmei isso para um provável e eventual anunciante da minha “ZYR 35 Martinópolis Rádio Clube”. Quando esse “eventual” cliente tinha experiência, era mais fácil.

Eu e meu amigo Flávio Araújo, que hoje mora em Águas de Santa Bárbara, junto com sua esposa Ivetinha e o cunhado, o Totinha, tínhamos um grande anunciante, homem muito vívido, proprietário de uma firma denominada “O Paraíso das Sedas”. Enquanto os anunciantes, digamos comuns, exigiam um texto quilométrico, esse anunciante queria que o seu texto apenas falasse o seguinte: “deu a louca no Jaques Jorge”. Depois, com a bola parada, antes de o comentarista falar suas “abobrinhas”, num texto maior, o locutor dizia que, o “Paraíso das Sedas” estava torrando todo seu estoque de sedas finas, linho de primeira qualidade, tafetá e tudo mais por preço inacreditável. “Deu a louca no Jaques Jorge”.

Era realmente muito vivo esse anunciante. Ele sempre tinha uma verbinha para a P.R.I. 5 do Flávio, para a minha ZYR 35, para o “Serviço de Alto-Falantes Comercial” – uma tradição prudentina – com três pontos sonoros na rua Tenente Nicolau Maffei, um ótimo ponto comercial em Presidente Prudente. O dia em que não houver tanta falta de “fósforo”, ainda escreverei uma crônica sobre esse alto-falante que mesmo trabalhando só das 19 às 22 horas, faturava mais que muitas emissoras de rádio. Ainda vou ter “cabeça” para escrever “O Alto-Falante da Praça”, ou coisa parecida.

Sobre Jorge Jaques, ele já morreu. O Paraíso das Sedas também já não existe, assim como não existe mais o tradicional endereço: Rua Tenente Nicolau Maffei, esquina com Joaquim Távora. Quer dizer, existir existe, mas agora é Rua Dr. Felício Tarabay. É bom ficar registrado que o Sr. Jorge Jaques morreu de morte morrida, ele nunca foi louco. Era sim, um bom comerciante, ex-mascate. Minha intenção não é fazer uma crônica toda em homenagem ao Jaques Jorge, tenho a intenção de mostrar o poder da propaganda principalmente quando ela cai num “campo minado”, ou seja, encontra quem está desejando a aquisição daquele produto.
Foi o caso da minha mulher. Ela estava querendo uma oportunidade para cortar a grama do terreno de casa a hora que tivesse vontade de gastar muita grana. O que é “muita grana”? Depende do que se ganha. Pra uma mulher de um aposentado tipo INSS, trinta, quarenta reais, entre dia 20 e 30 é muita grana. Entre dia 1º e dia 10 já não é tanto. Ela viu uns prospectos anunciando uma máquina de cortar grama. Foi paixão fulminante. Aquela máquina passou a ser razão da existência da Berê. Comprava aquela “maquininha” ou a Berê morria. Ela está viva, sinal que eu comprei tal máquina. Ela corta grama todos os dias ou, pelo menos, a cada 15 dias? Não senhor, a primeira vez que foi experimentar, foram as duas para o chão. Só de fios são quase cem metros, a máquina pesa mais de 12 quilos. Valeu a pena, pelo menos a mulher está viva. Acalmou a “fúria” de dona Berenice.

Fazia um bom tempo que minha mulher já não acreditava em propaganda. Nada mais de Papai Noel. Ela e Raul Gil viram que esse negócio de “todo dia de domingo ser Natal” não dá certo. Outro dia ela chega em casa com uma milagrosa máquina que praticamente lava a casa sozinha, não gasta energia elétrica, não usa água, é leve, uma verdadeira maravilha da tecnologia futura. Só para ligar a tal máquina veio o irmão (de fé) Zé Paraná. A máquina consome mais água que dez camelos quando encontram um oásis no deserto. Se não tomar cuidado o oásis seca e não sacia a sede dos dez camelos.

Vou arrumar um jeito de a minha mulher descobrir que cegonha, boitatá, Papai Noel e uma porção de coisas não existem. Metade é fruto da mente do homem, a outra metade é o tal consumismo que nos aflige. Desde pequeno ouço falar no “moto perpétuo” e até hoje não sei direito o que venha a ser. Mas sabe? Sou meio culpado disso. Na verdade, não ajudo a Berê fazer nada e ela muito justamente vive procurando “moto perpétuo”. Desculpe-me Berê.

Enio Campos
Cronista e Radialista
Colaborador do ARCRON
Reside em Serra Negra - SP

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