segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Inexperiência

Esse título é porque hoje amanheci com “cara” de gente educada. Nos meus dias normais, tranqüilamente, esta crônica chamar-se-ia ‘Quanta Burrice”, mas, hoje eu amanheci com espírito de um jornalista educado. É uma história sem muita fantasia, bem chegada ao real. Meu pai, o falecido mão-de-vaca, sr Manoel Lopes (Deus o tenha) parece que tinha ratoeiras no bolso. Uma vez, acho que em 1.958 convidou-me para uma pescaria/caçada em Bataguassu no Mato Grosso (ainda não havia Mato Grosso e Mato Grosso do Sul).

Um convite desse, partindo do meu velho? Munheca como ele só, tinha que ter “rabo de saia” no meio. Não quis nem saber que pintou a Casa Verde ou quem deixou o Tatuapé. Sem pensar duas vezes aceitei o convite e nem quis saber porque em Bataguassu, se bem antes, muitos quilômetros antes, existia o Rio Paraná e o Rio Pardo, bem mais famoso que o Bataguassu. Entre os muitos problemas, nós não tínhamos marmitas para levar a “bóia”. O velho teve uma idéia genial, mandou minha mãe lavar duas latas de cera Parquetina que serviriam de marmitas. O que valia era o conteúdo; e minha mãe caprichou.

Eu morava em Presidente Prudente, não muito distante. Saímos bem cedinho e antes das oito da manhã já estávamos na beira do rio. Conhecendo meu pai como ninguém, tive uma surpresa muito grande, pois não havia nenhum “rabo de saia” na jogada. Meu pai é falecido a mais de quarenta anos, e não fiquei sabendo de nada. Mais ou menos às onze horas, a fome bateu. Não sei se era fome ou vontade de comer.


Experiente com ele só, o seu Manoel Lopes acendeu uma fogueirinha e colocou as duas latas para esquentar. Quanto mais as latas esquentavam, o ar ficava com um cheíro de cera. É que as latas tinham sido bem lavadas, com todo o capricho. Acontece que nas juntas das latas, ficou um pouco de cera, e a medida que a lata esquentava, aquilo ia derretendo e misturando com a comida. Uma maravilha. Comida misturada com cera. Ficou intragável. E agora? Lá em Bataguassu, Sul de Mato Grosso. Por azar, ainda estava piscoso o rio. Seria pecado deixar a pescaria pela metade. Não tinha nada para comprar num raio de trinta quilômetros. Ainda bem que aquele cheiro de gasolina misturado com feijão, arroz, bife de fígado e mandioca, que seria o manjar dos deuses, trazia a todo instante uma ânsia de vômito incontrolável.

Uma brilhante idéia partiu do senhor Manoel Lopes. Aquela não era exclusivamente uma pescaria, afinal estávamos no Rio Bataguassu, era só matar uma Capivara e assar. Enquanto eu fiquei pescando, meu pai colocou em pratica o plano nº dois. Não demorou nem vinte minutos e Bum. Foi um tiro só e adeus capivara. O velho era caçador de mão cheia, num instante a caça já estava no espeto. Surgiu um pequeno detalhe: não tinha sal. Churrasco de Capivara sem sal também é intragável. Havia uma escolha: comer a marmita com gosto intolerável de cera. Preferimos ficar com o Churrasco de Capivara sem sal. Até que desceu.

A infeliz idéia da comida na lata de Parquetina foi do velho. Depois eu tive uma outra grande idéia, fui matar alguma coisa para trazer de lembrança. Quando “mirei” numa Capivara, o velho viu que eu não sabia atirar e perguntou: “você já usou uma espingarda?” e minha resposta foi positiva. O seu Manoel viu que pela posição da arma eu nunca havia atirado na vida, mas, deixou que eu fosse em frente. Porque apoiar a coronha da espingarda no ombro? Simplesmente direcionei a mira na caça e Bum. Não sei para que lado atirei porque levei um tremendo “coice” na boca, caí de costa pelo menos um metro, com a boca toda inchada. Só nesse instante eu aprendi a razão de se apoiar a coronha da espingarda, geralmente no ombro esquerdo, é pelo tranco que dá, motivo da pergunta que meu pai tinha feito anteriormente: se eu havia usado uma espingarda.

Todo “bocudo”, com raiva de ter comido churrasco de capivara sem sal, juntei minhas coisas e fui direto ruma a trilha que nos traria de volta. Por isso é que o titulo desta crônica seria mais apropriado se fosse Quanta Burrice. Primeiro pela comida nas latas de Cera Parquetina, depois pelo tiro sem o devido apoio. Aprendi. Paguei caro, mas aprendi.


Eino Campos
Cronista, Jornalista e Radialista
Reside em Serra Negra - SP

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